Existe Remédio para Lipedema?
O que um estudo randomizado com Pycnogenol® (Flebon®) sugere, e como interpretar na prática (clique e leia o artigo origial).
Dr. Abdo Farret Neto | Angiologista, Cirurgião Vascular e Endovascular
Muitas pacientes com lipedema chegam ao consultório com a mesma pergunta: “Existe um remédio que melhore o lipedema?”. A resposta honesta costuma ser: não existe uma “cura em comprimido”, mas existem estratégias que podem reduzir sintomas (dor, sensação de peso, edema e piora da qualidade de vida). Recentemente, um ensaio clínico randomizado e duplo-cego avaliou um flavonoide (Pycnogenol®, comercializado como Flebon®) como adjuvante no tratamento do lipedema.
A seguir, resumo o que esse trabalho encontrou, quais são as limitações e como isso pode (ou não) se traduzir para o seu dia a dia.
Lipedema em poucas linhas
O lipedema é uma doença crônica e progressiva, muito mais comum em mulheres, associada a períodos hormonais como puberdade, gestação e menopausa. Caracteriza-se por acúmulo desproporcional e geralmente bilateral de gordura subcutânea, principalmente em quadris, coxas e pernas, com preservação típica de pés e mãos. Dor ao toque, hematomas espontâneos, sensação de peso, fadiga e edema persistente são queixas frequentes.
O lipedema também pode ser confundido com obesidade, linfedema e doença venosa crônica — e também pode coexistir com essas condições.
O que é o Pycnogenol® (Flebon®)?
Pycnogenol® é um extrato padronizado da casca do Pinus pinaster, rico em polifenóis (proantocianidinas e ácidos fenólicos). Na medicina vascular, é mais conhecido pelo uso em fragilidade capilar e sintomas de insuficiência venosa crônica, graças a efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios e potencial melhora da microcirculação e da permeabilidade vascular.
O estudo: o que foi feito?
O trabalho publicado em 2025 avaliou mulheres com diagnóstico clínico de lipedema em um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com 60 dias de seguimento.
- População: 100 mulheres (18–40 anos), acompanhadas em uma única clínica no Espírito Santo.
- Intervenção: Pycnogenol® 50 mg (Flebon®) a cada 8 horas (3x/dia), versus placebo.
- Desfecho principal: qualidade de vida/sintomas por “Questionário de Avaliação dos Sintomas do Lipedema” (QuASiL -0–150; quanto maior, pior).
- Desfechos secundários: peso, IMC e composição corporal por bioimpedância.
Resultados principais
No início, as médias do QuASiL eram semelhantes entre os grupos (~88 pontos). Ao longo do acompanhamento, o grupo placebo piorou progressivamente, enquanto o grupo Pycnogenol® apresentou melhora significativa e progressiva dos sintomas e da qualidade de vida.
- QuASiL: média de 69,5 em 30 dias e 63,2 em 60 dias no grupo Pycnogenol® (p < 0,001).
- Também houve melhora em sintomas individuais (dor, sensibilidade, edema, peso/fadiga nas pernas e outros itens do questionário).
- Houve redução estatisticamente significativa de peso, IMC e percentual de gordura corporal no grupo intervenção, em comparação ao placebo.
Em resumo: o estudo sugere que Pycnogenol® pode ser um adjuvante para reduzir sintomas e melhorar qualidade de vida em lipedema, ao menos no curto prazo (60 dias).
Como interpretar isso na prática?
Este trabalho é relevante por ser um dos poucos ensaios clínicos controlados avaliando uma opção farmacológica no lipedema. Dito isso, alguns pontos precisam ser colocados com clareza:
- Não é “cura”: melhora sintomática não significa reversão definitiva da doença.
- Tempo curto: 60 dias é pouco para uma doença crônica e progressiva; não sabemos se o efeito se mantém.
- Amostra e cenário: estudo em uma única clínica e com faixa etária limitada; reduz a generalização.
- Diferença inicial de peso entre grupos pode introduzir viés, apesar da randomização tentar equilibrar variáveis.
- O lipedema frequentemente coexistirá com insuficiência venosa, obesidade e/ou linfedema — e cada componente exige abordagem específica.
Na prática, o principal valor dessa evidência é abrir espaço para discutir tratamento medicamentoso como parte de um plano maior, e não como solução isolada.
O que continua sendo base do tratamento do lipedema
Independentemente do uso de qualquer medicação, a estratégia costuma combinar:
- Educação diagnóstica: diferenciar lipedema de obesidade, linfedema e doença venosa; e identificar quando coexistem.
- Medidas físicas: compressão selecionada, drenagem/terapia descongestiva quando indicada, e cuidados com a pele.
- Exercício: progressivo e sustentável (incluindo fortalecimento e atividades de baixo impacto) para função e dor.
- Plano alimentar: visando saúde metabólica (não “dieta punitiva”), com foco em composição corporal e inflamação.
- Saúde emocional: impacto na autoestima e na qualidade de vida é real; acompanhamento multiprofissional ajuda.
- Cirurgia (em casos selecionados): lipoaspiração específica para lipedema e outras intervenções devem ser discutidas em contexto especializado.
Efeitos adversos e cuidados
Mesmo quando um produto é classificado como “fitoterápico” ou “suplemento”, ele pode ter efeitos adversos e interações. Antes de iniciar, discuta com seu médico, especialmente se você:
- usa anticoagulantes/antiagregantes (ex.: varfarina, rivaroxabana, AAS, clopidogrel);
- tem histórico de sangramentos fáceis;
- está grávida ou amamentando;
- tem doenças crônicas e faz uso de múltiplas medicações.
Aviso: este texto tem finalidade educativa e não substitui avaliação médica individualizada.
Perguntas rápidas
1) Então existe remédio para lipedema?
Ainda não existe um medicamento “padrão-ouro” com evidência robusta e de longo prazo. Este estudo sugere benefício sintomático com Pycnogenol®, mas precisamos de mais pesquisas.
2) Vale a pena tentar Pycnogenol®?
Pode ser considerado como adjuvante em pacientes selecionadas, dentro de um plano global de tratamento. A decisão deve levar em conta sintomas, comorbidades, risco de interação medicamentosa e custo.
3) Se melhora sintomas, por que não prescrever para todas?
Porque a evidência ainda é limitada, o efeito foi medido no curto prazo, e cada paciente tem um perfil clínico diferente. Além disso, o lipedema frequentemente tem múltiplos componentes (venoso/linfático/metabólico) que precisam ser tratados em conjunto.
